domingo, 17 de agosto de 2008

Capítulo 12 - O Conto do Crepúsculo

"Em tempos imemoriais e, talvez, não pertencentes ao contexto geral desta narrativa, vivi momentos muito valiosos. Muitos já amaram; inúmeros já citaram tal tema em incontáveis circunstâncias; mas esta não é uma história de amor, é uma história de inquietação, de olhares anônimos, de repetições dolorosas, de paciências torturantes, mas não deixa de ser uma história definida como a queda da razão diante da emoção... E, neste caso, tal queda proporcionou um indescritível poder de causar sofrimento. Afirmo-lhes isso, pois, um ser humano sofre neste instante. Palavras provavelmente não chegarão perto de toda a síntese dos acontecimentos. Eu estava apodrecendo por culpa própria, envolvido por uma armadura de energias duvidosas, mas isto não me impediu de deitar meus olhos nela, naquela garota, como se o mundo fosse maior, mais livre, mais independente, mais carismático, mais perto do fim. Olhei bem para ela: era uma doce face construída com louvor, com sutileza, com capacidade absurda de prender a atenção de um indivíduo do sexo masculino — e talvez de alguns do sexo feminino também. Primeiro, me pareceu de estatura baixa, depois vi as curvas sinuosas e gráceis do seu corpo, o que me fez, suspeitosamente, achar que não teria como me esquecer dela com alguma facilidade. Porém, eram o rosto e os cabelos os que mais me sugavam mentalmente; era possível que, em um milhão de mulheres no mundo, não se encontraria um ser cósmico e distinto como aquela moça, e como os cabelos dela, isto é, os cabelos em conjunto com aquele seu rosto soberbo; digo, só um tempo depois, na conformidade real das coisas, eu viria a perceber que ela se tornaria evidentemente inolvidável para mim.

Aquele era o primeiro dia de aula de muitos outros que viriam dentro daquele ambiente, sempre às tardes... Aquelas tardes estranhas, às vezes escuras, às vezes claras, às vezes as duas coisas, mas, muitas vezes, desgraçadamente melancólicas também; talvez isso me gerasse inspiração, mas ao mesmo tempo, estupidez, insegurança, medo — ou, na conclusão de fatores tão fúnebres: uma sensação de incompatibilidade com o mundo. Sim, sim, era sofrível, mas talvez a culpa disso tudo estivesse em atos passados, em perdas de oportunidades, em falta de habilidade nos momentos mais cruciais...! Mas é melhor que joguemos a subjectividade no lixo agora, pois a história que se segue não é nenhum pouco feliz — ao menos no seu final, com certeza não.

A vez que falei com ela foi numa das tardes claras: lembro-me como se fosse hoje, a vivacidade de sua fala, o balançar dos cabelos, e, enquanto nos perdíamos em diálogos triviais, eu já sabia que, a partir dali, uma bola de neve psicológica começaria a rolar. Era o seguinte: entre as aulas insuportáveis, o peso da rotina e o cansaço preguiçoso, teria de haver algo que pudesse deixar tudo mais leve, mais admirável — algo que me desse mais vontade de estar lá. E esse algo, como eu tinha começado a constatar, era ela.

— Você gosta realmente dela? — perguntou Carlos à mim, numa das tardes mais escuras.

— Eu não sei. Eu sinceramente não sei, mas prefiro dizer que sim. Esquecê-la talvez seja fácil, mas se eu o fizer, nada mais será interessante aqui.

— Ela tem uma relação muito boa com o namorado dela, você sabe. O mais provável de se acontecer numa situação dessas é você sair com o coração esquartejado!

Enquanto pensava e repensava sobre os conselhos de Carlos, eu ainda insistia em observá-la ininterruptamente. Afogado na obviedade da minha razão e na teimosia das minhas emoções, deixei o tempo passar. O frio no estômago foi ficando cada vez mais freqüente e incômodo, na mesma proporção em que a vontade de ir vê-la aumentava. Era um amor impossível — se é que algo assim existe —, mas eu sentia uma mínima parcela de esperança brotar dentro da minha mente, porque, com uma anormal perspicácia, minhas capacidades racionais iam sendo arrastadas para o fundo de um poço que poderia não ter fim.

Pensamentos maldosos e pesadelos desesperadores invadiam-me vez ou outra, o pânico me dominava numa quase total escuridão, e uma lucidez existencial me corroía por dentro: se a vida eterna existir, como alguém conseguirá agüentar a si mesmo até sempre? E se ela não existir, a não-existência deve realmente ser temida? Tudo era um beco sem saída, uma espera por nada, em qualquer aspecto ou ângulo que eu podia tentar visualizar; e ela, a moça, de repente, aparecia no meio de tudo isso, me fazendo sofrer, mas era um sofrimento suportável até então. Na proximidade com ela, a resplandecência vinha, mesmo que houvesse a impossibilidade de uma relação mais profunda.

Num fim de semana árduo e cansativo, eu desejei. Desejei poder tê-la mais do que tudo, mais do que qualquer pessoa ou coisa, mas não tê-la como um objeto, apenas desejei poder ficar junto com ela durante o tempo necessário para que pudesse ter um valor mais memorável para mim. O sol das tardes vinham à mim em coreografia com os ventos das tardes frias, mas a melancolia era o número predominante: juntei tudo e todos dentro da minha consciência e pedi, com certo pesar por imaginar a existência do egoísmo naquele ato, que o desejo se realizasse cem mil vezes mais rápido do que o normal, se isso fosse realmente algo possível de acontecer. E eu comecei a esperar.

Mas a espera não foi tão longa. Tudo durou duas semanas. Minha auto-confiança renasceu das cinzas mais cambaleantes possíveis, onde, seguidamente, eu era remetido a uma seqüência quase cronológica de sensações de nostalgia que haviam me marcado no passado de forma indefinida, mas que, talvez por minha própria desatenção, haviam sumido da minha memória. E, num dos dias em que essas nostalgias ocorriam, a moça chegou, à tarde — e ela não se sentia muito bem. Ela não ficou muito tempo ali: foi embora no intervalo, enquanto eu ficava ali, numa aflição torta, já que no fundo eu queria acreditar que ela, agora tão frágil, vulnerável e fraca, fosse, no dia seguinte, adentrar naquela sala tão saudável como nunca. Mas quatro dias se passaram, sem que ela aparecesse. No quinto dia, recebendo a notícia mais dilacerante de toda minha existência, eu quis morrer, pois, sim, ela estava... Morta.

— Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!

Tudo havia desabado, todas as minhas esperanças, todas as minhas crenças, todas as teorias em que eu acreditava, tudo que pudesse servir como uma base para a minha manutenção estava desmoronando violentamente.

Mas, com o tempo, veio a calma, e com ela eu vi uma hipótese. Sozinho, num ônibus, sem rumo ou objetivo algum, pensei: 'O desejo que fiz, aparentemente, fez com que as coisas acontecessem ao contrário... Mas, há uma intuição tola dentro de mim, uma intuição que sempre esteve aqui. Eu não sei se posso acreditar em vida após à morte, reencarnação ou coisas do tipo, mas se o desejo for realmente se realizar o mais rápido possível, eu preciso morrer logo... Preciso morrer para ter você nos meus braços, preciso morrer para poder ver seus olhos pungentes, preciso morrer para acariciar seus cabelos muito cacheados, preciso morrer para poder, no mínimo, vê-la novamente... Marina!'. E, nada mais fazia diferença. Eu aguardava. Apenas aguardava. A morte viria — e eu não tinha tanta pressa, já que eu não vivia mais à mercê do tempo."



Jorge Santos Machado, São Paulo, Outubro de 2008

sábado, 9 de agosto de 2008

Capítulo 11 - Aurora - Parte Final

— Espere um momento! — disse Manuela — Se nós cinco somos as crianças que ela devia ter visto para que pudesse se livrar da doença, e ela provavelmente já viu quatro de nós, só nos resta irmos até ela e tirar isso à limpo de uma vez por todas!
Jóhann silenciou-se. Sim, era verdade, mas dentro de todo esse cenário bizarro, faltavam-lhe informações.
— Escute, Manuela. As coisas não são tão fáceis assim. Por mais que sejamos algo que se aproxima de deuses, Isadora e eu infelizmente não sabemos qual é a localização atual de Sara, nem mesmo qual de vocês cinco é o indivíduo que faltou ser visto por ela. Só que as explicações maiores ainda virão, até mesmo para nós dois. O diretor está chegando.
Todos se entreolharam, inquietos. O tal diretor... Se Jóhann e Isadora eram quase deuses, o que poderia ser dito sobre esse diretor? Quer dizer: de onde haviam saído essas criaturas sobre-humanas que, repentinamente, vinham com histórias sobre acontecimentos nada comuns, como se a realidade fosse cheia dessas coisas totalmente anormais? Pois, se para quase cem por cento das pessoas no mundo a vida é uma chatice, o que faria Manuela, Dante, Marina, Cecília e Luiz serem seres tão importantes ao ponto de que essas coisas incríveis viessem a acontecer justamente com eles? Essas coisas simplesmente não ocorrem na vida real. De fato, não.
Jóhann se levantou e foi à cozinha. Isadora foi fumar na janela. Os cinco jovens estavam inicialmente quietos, mas Luiz tentou começar uma conversa:
— Ei... O que vocês acham de tudo isso? Nessas horas a gente fica tão surpreendido que nem dá pra esboçar uma reação direito. Pelo menos pra mim é assim.
— É evidentemente estranho — comentou Marina —, mas já que estamos nessa situação, não há como continuar sendo incrédulo quanto à isso, a não ser que você queira acreditar que está sofrendo de esquizofrenia.
Dante riu:
— Sim, e seria muito improvável que nós cinco estivéssemos sofrendo disso ao mesmo tempo. O jeito é aceitar a realidade absurda que surge e seguir em frente. Se bem que, creio eu, com o tempo, qualquer coisa no mundo acaba ficando monótona... Por isso que o ser humano tenta variar tanto a sua rotina.
— Realmente... — falou Cecília, ficando de pé e sentando-se na poltrona antes ocupada por Jóhann — Não dá pra sair correndo de medo. Mesmo assim, tudo é possível, então a possibilidade deles serem charlatães é totalmente concebível, não?
Manuela, para a surpresa de todos, começou a chorar com um tom alto de angústia.
— Eu... Eu sei que a culpa é minha! Só pode ser! Eu não me lembro de ter visto nenhuma garota como essa tal Sara no dia do aniversário de Marina! A criança que falta só pode ser eu!
Todos foram na direção dela para consolá-la.
— Mas, Manu... — disse Cecília, em tom brando — Nem eu me lembro. Pode ser qualquer um de nós, ora. Sara estava olhando para muitas crianças ao mesmo tempo. A única que Jóhann disse que certamente a viu foi Marina, e ninguém mais. Nada é certo ainda, não se culpe antes da hora.
A garota ruiva levantou o rosto cheio de lágrimas e disse, em meio a soluços:
— Mesmo assim... Ugh!... Eu sei que sou eu... Eu posso sentir! — e desabou em lágrimas pesadas.


Do lado de fora começava a chover. O ambiente daquela casa externamente branca se transmutava em algo cada vez mais enlevante. O cheiro de vapores desconhecidos invadiam os sentidos dos cinco jovens. Uma música começava a tocar da cozinha: era Canon em Ré Maior, de Johann Pachelbel, um dos compositores favoritos de Jóhann, tanto que ambos possuíam até o mesmo nome. Já se passavam das cinco horas da tarde. O dia estava ficando cada vez mais cinzento.
Na sala, Dante resolveu tentar dialogar com Manuela, mesmo depois de ambos terem "cortado relações" no episódio do encontro inesperado no ônibus.
— Você imaginava que, mesmo depois de termos decidido dar um tempo, íamos estar aqui, um ao lado do outro, dentro de toda essa maluquice?
A garota, pensativa, falou, enquanto apertava as mãos sobre os joelhos:
— Eu não consigo entender, Dante... Tem momentos em que eu sinto que errei ao ter te falado tudo aquilo, e tem momentos em que eu me sinto bem por me sentir livre de você. É tudo muito confuso, eu sou uma pessoa confusa, você sabe. Uuufff! Viver não é fácil, essa é a verdade.
— Entendo. Mas não pense que isso acontece só com você. Todo mundo tem seus momentos de erros e acertos, de certezas e incertezas, de achar que foi compreendido e de achar que não foi. O mundo se resume à isso. Não, não, acho que não, o mundo é mais que isso... Mas a verdade mesmo é que não passamos de seres humanos. Agora, aqueles dois, Isadora e Jóhann, bom, eu francamente fico sem palavras diante de coisas além da minha compreensão.
— Sei lá... Eu ainda estou esperando pelo momento em que eles irão parar e dizer que tudo isso não passa de uma grande brincadeira de mal gosto...
Os dois olharam-se, rindo.
Instantes depois, Jóhann e Isadora voltavam à sala. A chuva continuava cada vez mais forte do lado de fora.
— Ele já está aqui. — sussurrou Jóhann.
A campainha tocou em seguida. Isadora saiu para abrir o portão. Lá fora, Leon — o velho esquisito, com longos cabelos grisalhos e a espiral na testa — encontrava-se cercado por quatro homens inteiramente vestidos de branco, talvez fossem guarda-costas ou algo do tipo. Leon e os quatro homens foram conduzidos por Isadora para dentro da residência.
Quando Dante viu o homem da espiral na testa, assustou-se: então, de fato, tudo estava relacionado. Leon, homem que havia aparecido em seus sonhos era realmente o tal "diretor".
— Boa tarde à todos. Meu nome é Leon. Sou o diretor da agência que recruta indivíduos como Isadora e Jóhann, que são atualmente os únicos disponíveis para esta missão. Foi difícil chegar aqui, Ivan não sabia de fato qual era o caminho. Na verdade, já podíamos ter advindo aqui muito antes, mas eu tenho minhas tendências de querer agir como um ser humano normal. Creio que Jóhann já explicou-lhes tudo. A informação adicional que eu trago, no entanto, é vaga, mas mesmo assim nos ajudará relevantemente. Aparentemente, Sara se encontra em uma região na Europa entre a Bélgica e a Holanda. De acordo com a fonte, ela está vivendo — dormindo — numa mansão, onde mora com uma velha senhora que toma conta dela com muito carinho. É estranho, pois, como é possível que saibamos como é o lugar e quem são as pessoas que vivem nele sem sabermos exatamente a localização? É que, como eu poderia dizer, a minha fonte é um tanto quanto desconfiada e vive mudando de opinião e temperamento. Mas, isso não tem importância. A determinação fará com que encontremos quaisquer coisas que queiramos. É bom partirmos o quanto antes. A cada minuto que se passa, Sara corre o risco de entrar em colapso onírico e isto acarretará em graves problemas futuros para ela. É triste, mas eu me culpo diariamente por não ter me concentrado em ajudá-la antes, mas isto seria impossível, o momento de vocês se unirem é este, agora, e nenhum outro. Vamos, meus jovens. Levantem-se. Está na hora.
Surpresos, todos se levantaram — a coisa ficava cada vez mais estranha e incompreensível. Leon, seus homens e Isadora saíram, seguidos pelos cinco jovens que andavam agrupados sob a chuva; Jóhann foi o último a sair, fechando a porta atrás de si. Olhando para os jovens ao mesmo tempo em que esboçava um sutil sorriso no rosto, Leon apontou com a mão para os veículos estacionados do lado de fora do portão: além do Fiat Uno da mãe de Cecília, podia-se ver uma Van em estado de conservação questionável e, logo à frente dela, havia uma lustrosa Ferrari Enzo prateada que parecia mais e mais atraente à cada gota de chuva que lhe atingia.
Apesar de toda a continuidade dos acontecimentos, havia restado uma pergunta gritante no ar: onde estariam os verdadeiros donos daquela casa, os amigos de Cecília? Que tipo de ocorrência teria feito com que eles tivessem eventualmente abdicado da posse da casa para concederem-na a indivíduos estranhos e desconhecidos para que esses realizassem uma reunião sobre problemas sobre-humanos? Essa questão, de repente, pareceu não importar mais nem para Cecília, nem para nenhum dos cinco jovens ali. Talvez ninguém precisasse saber. Talvez isso não fosse fazer a mínima diferença dali para frente. Fingir que nada aconteceu era mais fácil, mais coerente, mais saudável... Mas provavelmente não era a coisa certa a se fazer.

sábado, 2 de agosto de 2008

Capítulo 10 - Aurora - Parte 2

A angústia vinha, dando cambalhotas: Manuela começava a se sentir cada vez mais exposta ali, diante de Jóhann e Isadora — e o islandês prosseguia:
— Percebo agora, com saudável clareza, que realmente fizemos a escolha certa. É lógico que, ao mesmo tempo que todo ser humano é igual ao outro, cada um é diferente do outro ao mesmo tempo e, desse ponto de vista, Marina é uma garota inteligentíssima e nos ajudará nas investigações.
— Que investigações? — interrogou Cecília.
— Haha! Será que você não poderia ser um pouco mais paciente, minha jovem? Eu chegarei nesta parte. Aliás, já que não aguenta de tanta curiosidade, vou falar de você. Cecília: uma dama peculiar, mas que acaba soando quase como uma coadjuvante. Infelizmente. Mas você ainda terá incontáveis oportunidades para brilhar. Sua capacidade intelectual é elevada, convenhamos, você também nos auxiliará bastante daqui para frente. Luiz e Dante também estão no mesmo patamar, então, por enquanto, deixaremos para falar sobre ambos mais à frente. Agora, você — e apontou para Manuela —, você é tão importante quanto Marina. Você, bela Manuela, representa um item de imensa importância para nós, um item indispensável. Manuela... Você representa... A emoção humana.
Manuela corou. Todos a observavam com sorrisos gentis.
— C-como assim? — perguntou ela, timidamente.
— Você é um mar de sentimentos, Manuela. Você é uma estrada, uma estrada onde quem a percorre sente o mais dinâmico turbilhão de sensações. Dante que o diga. Soma-se isto com seus volúveis cabelos vermelhos e o que temos? Uma estrada vermelha. Uma sinuosa estrada vermelha. Imagino se neste mundo possa existir alguém que seja uma fusão do seu valor sentimental com o valor intelectual de Marina. Mas a existência de um ser desses é muito improvável.
Dante, inesperadamente, se levantou do sofá e, com tom desafiador na voz, disse:
— Você está errado! Manuela não é só uma "estrada vermelha de sentimentos"! Ela é tão ou mais sábia do que qualquer um aqui, pois ela tem a árdua tarefa de ter que lidar com seu potencial emocional. Todo mundo sabe que, quando se trata de sentimentos, a barra é indiscutivelmente pesada. Eu tenho certeza de que ela, de fato, concorda comigo, já que poucos param pra pensar sobre isso.
A garota olhou para ele com carinho. O coração de Dante disparou. Jóhann, rindo mais uma vez, argumentou:
— Parabéns pela audaz observação, senhor Dante, estou vendo que não vou poder subestimar nenhum de vocês aqui. Mas vamos parar com essa conversa assaz melosa e vamos começar a falar do que importa. Preciso que ouçam com atenção e seriedade. Eu vou falar sobre um acontecimento. Tal acontecimento está intrinsecamente relacionado à vocês cinco. Foi há nove anos atrás... Na manhã do dia 29 de Agosto de 1999, dia do aniversário de Marina, foi quando, pela primeira vez, por ordem de nosso diretor, Isadora e eu pusemos os pés em solo brasileiro. Imediatamente, sentimos o peso da diversidade deste país, mas não tínhamos tempo pra pensar à respeito. Tínhamos que nos concentrar numa certa pessoa que, digamos, se encaixaria como um sexto integrante no grupo de vocês, mas isso, na prática, era algo impossível de ocorrer, já que a morte dela serviu como ponto principal para que a relação que existe entre vocês nascesse; em outras palavras, se ela não tivesse morrido, vocês cinco não estariam juntos aqui hoje. Seu nome era Sara. Era uma garota encantadora, belíssima, com cabelos tão dourados que cheguei a entrar em êxtase quando a vi. Lá estava ela: sozinha em casa, abandonada pela família, deitada na cama de seu quarto esperando as energias voltarem. Ela tinha uma doença bastante incomum: sentia contrações emocionais e mentais em todas as ocorrências de sua vida que chegariam a estar relacionadas com seus sonhos posteriormente. Compreenderam? Não se tratavam de sonhos premonitórios, mas sim o contrário, através dessas contrações, ela poderia perceber com "quem" ou com "o quê" os seus sonhos seriam. Mas não era sempre assim, pois outros tipos de sonhos assolavam sua individualidade consciente. Eram sonhos sempre macabros ou tristes e, segundo ela, iam sugando cada vez mais as suas energias vitais. Tal síndrome (sim, acho que posso chamar de síndrome, não?) foi afastando lentamente as pessoas que estavam ao seu redor, até mesmo os próprios pais, que na realidade eram adotivos e não aguentavam mais viver naquela situação, já que as contrações da garota se tornavam cada vez mais freqüentes. No fim, o que restou foi somente ela com ela mesma, mais debilitada do que nunca, mas ainda assim era a coisa mais bela que eu já havia visto. Quando Isadora e eu entramos na humilde casa da garota sem ao menos bater na porta, ela não ficou surpresa. Parecia que nos esperava. Ela se sentou na cama e com muito esforço deu um sorriso incrivelmente meigo... Prosseguimos, explicando à ela o motivo de estarmos ali: iríamos acabar com as contrações e com os sonhos que a faziam sofrer. Sim, aquela era a nossa missão desde o início. De acordo com as informações dadas pelo nosso diretor, a única maneira de curá-la seria no momento em que encontrasse cinco pessoas específicas e sonhasse com todas elas de uma vez só. Se tal feito fosse realizado, ela acordaria no dia seguinte totalmente livre das tais contrações. O dia 29 de Agosto daquele ano, no entanto, era o melhor dia para a concretização da cura: estas cinco pessoas, na época, crianças, — como vocês já imaginam, são vocês cinco aqui presentes, Marina, Dante, Luiz, Manuela e Cecília — estariam juntas na sua festa de aniversário de nove anos, Marina, e, tendo conhecimento de tal fato, Isadora e eu nos posicionamos de modo a ir até a tal festa de aniversário, apresentar Sara às cinco crianças, ter as contrações, para que, finalmente, pudesse sonhar com elas e se livrar de sua doença. Lembro-me até hoje do inesquecível vestido que Isadora havia dado à Sara... Era branco, simples, mas tinha uma aparência leve, onírica... Ela parecia um anjo. Lá estávamos nós na festa. Deixamos Sara sentada numa confortável cadeira no vasto quintal gramado. Crianças e adultos corriam pra lá e pra cá. Pedimos que Sara observasse cada detalhe com atenção, para que pudesse visualisar as crianças o quanto antes. Teriam que ser cinco contrações, e a primeira veio logo, no momento exato em que Marina e sua mãe vieram em nossa direção. A cena foi chocante — você se lembra, Marina?
Marina, então, concentrando-se, lembrou-se de algumas cenas vagas:
— Sim, mas não há nada muito claro na minha mente. Só me lembro de uma correria, minha mãe me puxou para trás, gritando para que eu fosse ir brincar com as outras crianças. O resto é muito vago.
— Entendo. Bom, como eu poderia dizer, os efeitos das contrações eram desconhecidos por mim e por Isadora, e aquele momento, mesmo para nós, foi tão marcante quanto triste: quando Sara fixou os olhos em Marina, pude sentir os tremores dentro da garota. Ela lançou-se ao chão, colocando as mãos na cabeça, gritando e chorando com uma intensidade medonha. Eu, saindo de um inicial estado de perplexidade, abracei-a, tentando acalmá-la, sem muito sucesso. Só depois de cerca de quinze minutos que ela conseguiu se acalmar. E a cena voltou a se repetir mais três vezes. Faltava apenas mais uma. Nós esperamos, mas a quinta contração não veio, o que levou Isadora e eu a imaginarmos que ela poderia ter visto duas crianças ao mesmo tempo e tido duas contrações simultâneas. Resolvemos dar uma volta pelo quintal gramado para que Sara pudesse ver cada uma das crianças dali. Naquela hora, a nossa falta de onisciência foi crucial. À noite, enqüanto dormia e sonhava com apenas quatro de vocês, Sara morreu. Ou melhor: não acordou, pois, ao contrário do que vocês podem pensar, ela continua, até hoje, no mundo dos sonhos, esperando pelo dia em que a quinta criança aparecerá para, enfim, libertá-la.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Capítulo 9 - Aurora - Parte 1

Três e quarenta da tarde, sexta-feira. O dia estava exaustivamente quente. Já haviam se passado duas semanas desde que Manuela e Dante haviam se separado, no dia 24 de Junho.
— É aqui! — exclamou Cecília ao parar o Fiat Uno que dirigia na frente da (razoavelmente) grande casa de seus amigos na pequena cidadezinha próxima de Itu: Cabreúva — É aqui que eles moram, Manu!
— Até que enfim! — comentou Manuela — Tá certo que eu não sei dirigir, mas você no volante é uma perdição. Não vou falar que foi graças à Deus que chegamos à salvo, mas acho que, pelo menos dessa vez, ele deu uma ajudinha!
— Haha! Você é mesmo uma mal-agradecida!
— Estou brincando! Só brincando, Cecília!
Ambas desceram do veículo. Abrindo o porta-malas semi-emperrado, Cecília tirou uma grande mochila e pôs nas costas. Manuela apanhou uma mala de tamanho mediano e que, de quebra, tinha rodinhas. As duas encaminharam-se até o grandioso portão de entrada (que era grande, mas com uma certa "aura" de simplicidade — e tocaram a campainha. Esperaram. Manuela olhou para o sol escaldante; Cecília observava Manuela e via o suor a escorrer quase que sensualmente pelo rosto da amiga. "Ela é tão... Apreciável!", pensou Cecília, a admirar a beleza da garota ruiva mesmo num momento como aquele. Manuela baixou os olhos e encontrou os de Cecília a observá-la tal qual estivesse hipnotizada.
— O que... foi? — perguntou Manuela.
— N-nada! — falou Cecília, corando e desviando o olhar imediatamente. Virou-se para a casa e pôde ver alguém a atravessar o vasto quintal gramado vindo em direção ao portão. Era um homem franzino e misterioso, vinha apoiando-se numa bengala e, mesmo naquele calor que beirava o título de insuportável, usava um chamativo sobretudo marrom.
— Ele é... Um dos seus amigos? — perguntou Manuela à Cecília.
A outra, muito séria, respondeu:
— Não. Com certeza não.
O homem aproximou-se do portão e abriu-o. Olhou para as duas belas garotas e sorriu.
— Sejam bem-vindas. Nós estávamos esperando-as.
Cecília, confusa, não sabia exatamente o que perguntar. Manuela, então, foi a primeira a falar:
— O senhor, por um acaso, mora aqui ou é parente de alguém?
— No momento, estou morando aqui. Chamo-me Jóhann. É um prazer vê-las depois de tanto tempo. Sem mais delongas, eu apreciaria muito se as duas moças entrassem o mais rápido possível. Lá dentro, garanto-lhes, é muito mais seguro do que aqui fora.
Cecília tentou se lembrar de quando havia sido a vez em que havia visto este homem, mas tinha uma certeza quase absoluta de que jamais o vira antes. Ele virou-se e começou a caminhar freneticamente em direção à casa. As duas garotas o seguiram. Tratava-se de uma construção peculiar: provavelmente com uma área de cem metros quadrados; era alta, com dois andares, telhado cinza, as paredes de fora pintadas impecavelmente de branco: era algo externamente encantador, definitivamente. Jóhann abriu a porta: logo de cara, via-se a sala de estar — e ali encontravam-se um consideráveis pessoas.
— Creio que vocês duas... — começou a falar Jóhann — Já conhecem alguns desses indivíduos.
E os indivíduos eram quatro: Isadora, Luiz, Dante e Marina. Estavam todos ali confortavelmente sentados no espaçoso sofá branco. E não havia nenhum sinal dos verdadeiros donos da casa, os amigos de Cecília.
— Eu não estou entendendo nada. — disse Cecília — O que eles estão fazendo aqui? Onde estão as pessoas que moram nessa casa realmente?
Uma risada cômica começou a irromper os ares. Isadora levantara-se do sofá e ria, ria profundamente, enquanto fumava um cigarro. Foi até Cecília e parou diante dela.
— É muito divertido ver quando as pessoas ficam assim perdidas, sem saber de nada. Eu não consigo evitar, eu rio, rio como se tivesse ouvindo a piada mais engraçada do mundo. Mas você não merece ser motivo de piada, pequena Cecília. Você merece saber. Os seus amigos não moram mais aqui.
— Como assim não moram mais? Eu liguei pra cá pouco tempo antes de sair de casa. O Mário atendeu e me disse que estariam esperando exactamente aqui! Eu não sei o que está acontecendo, mas isso não está me cheirando nada bem.
— Hihi! Haha! Hahahaha! Eu não devia rir num momento desse, não devia! Até porque a verdade é dura. Eles estão mortos, Cecília. Mortos!
Cecília foi bombardeada; não acreditava naquilo, mas sentia que poderia muito bem ser verdade, já que estava frente a frente com pessoas que não deveriam estar ali.
— Não é possível... Isso não aconteceu!
— Ninguém morreu. — falou Jóhann — Eu vou explicar à vocês tudo que vocês vão precisar saber daqui pra frente.
Jóhann, assumindo as rédeas da situação, pediu que Cecília e Manuela se sentassem. Ao mesmo tempo lançou um olhar repreendedor à Isadora. Um silêncio incômodo perdurou naquela sala durante dois minutos. Jóhann se sentou numa poltrona, virada de frente para o sofá branco onde todos estavam sentados. Isadora pegou um banquinho e posicionou-se ao lado do islandês. Era hora das explicações. Todas elas.
— Antes de tudo — iniciou Jóhann — Gostaria de apresentar às duas garotas, um de nossos pupilos, Luiz — e apontou para o rapaz de cabelos compridos — Luiz, essas são Cecília e Manuela. Vamos aos esclarecimentos. Comecemos pela jovem Marina que já sabe de praticamente tudo, e que, aliás, deve ser aplaudida aqui devido à sua atuação no encontro que realizou com as outras duas moças aqui presentes no Terminal Bandeira. Aquilo foi brilhante, afinal, dizer que havia fugido de casa por motivos familiares e ser convincente neste argumento da maneira como você foi (já que os reais motivos eram outros) é uma tarefa que apresenta certa dificuldade para que seja realizada.

Jóhann referia-se ao encontro marcado por Marina no dia 24 de Junho, dia em que havia sido vista por Cecília e Manuela (e que também havia sido raptada, ao anoitecer, por Jóhann e Isadora), deixando apenas a metade de uma foto, com o local, o dia e o horário do encontro: às 17hs, no Terminal Bandeira, seis dias após o ocorrido. E, de fato, Manuela e Cecília compareceram no dia marcado — no caso, era 30 de Junho. Porém, esse acontecimento será mais detalhadamente tratado nos próximos capítulos.

— O que podemos dizer da jovem Marina? — continuou Jóhann — Ela é a paixão-mor de Isadora, e, como se não bastasse, é a terceira pessoa mais inteligente aqui presente (já que eu e Isadora somos o primeiro e o segundo lugar, respectivamente). Ela chamou nossa atenção pela primeira vez no dia de seu aniversário de nove anos; de lá para cá, não desgrudamos mais os olhos dela. A maioria aqui deve se perguntar como nós iríamos prestar atenção nela sem que a própria percebesse. É simples. Eu e Isadora somos deuses dentro dessa realidade inconstante. Talvez não deuses completos, já que nos falta a onisciência, mas temos uma quase completa onipresença e uma onipotência bastante desenvolvida — sim, meus caros, nós podemos fazer quase tudo. Voltando...
— Espera aí...! — interrompeu Manuela — Você quer que a gente acredite nisso de verdade? Que palhaçada é essa agora?
— Eu posso mostrar. Talvez não funcione da maneira mais eficiente possível, mas eu posso mostrar.
— Estou olhando.
Antes que Manuela pudesse piscar os olhos, Jóhann havia sumido da poltrona e estava, agora, sentado ao lado dela. Outro instante depois, estava de volta à poltrona. Boquiaberta, a garota não tinha mais como negar. Sentia medo agora, e talvez por isso, preferiu esperar que o homem terminasse as explanações.
— Creio que lhe convenci. A você e à sua amiga Cecília. Os demais já estão devidamente à par no que diz respeito às nossas identidades. Eu poderia retornar à minha fala agora?
— S-sim.
— Perfeito. Bom, como eu ia dizendo anteriormente... Isadora, será que você se lembra... Onde eu estava mesmo?!

sábado, 19 de julho de 2008

Capítulo 8 - O Sonho

Na triste madrugada do vigésimo quarto dia do mês de Junho daquele ano, segurando uma garrafa de vodka na mão e olhando fixamente para o velho prédio do colégio estadual onde havia estudado no ensino médio, Dante, horrorizado por saber que teria que aturar a si mesmo o resto da vida, estava quase embriagado.
"Que merda! Que merda! Será que a culpa é minha? Será que eu mereço que a culpa seja minha?" — e foram-se mais alguns goles de vodka goela abaixo. Dante começou a andar, cambaleante e desordenado, se segurando nas grades que cercavam o colégio, bebendo vodka a cada intervalo de quinze segundos, sem nada na cabeça; não, na verdade havia uma única coisa em sua mente: Manuela, a ruiva. Já nem importava-se mais com a morte do pai. Só a vermelhidão de Manuela tomava-lhe conta do pensamento. Tropeçando em alguma coisa, o garoto foi ao chão. E alguma poucas lágrimas foram também.
Com esforço, ficou de pé mais uma vez. Seu estômago começou a revirar, a ânsia veio e o vômito saiu. Mais lágrimas foram junto. "Não tenho com quem recorrer! Não tenho com quem interagir!" Sentou-se no chão, de costas para a grade. Deu uma última boa golada de vodka e levantou a cabeça para o céu. "O poço ainda pode ser mais fundo... Não é?" E adormeceu ali instantaneamente.
Assim, o jovem Dante teve o sonho, o sonho que mudaria sua vida. Ele via-se numa vasta e interminável superfície branca — sobre a sua cabeça, um imenso céu num tom laranja-claro; subitamente, uma mão emergiu do solo alvo e, um instante depois, um corpo inteiro surgia diante de Dante. Era um velho esquisito — nem bem vestido, nem mal vestido — , com longos cabelos grisalhos, uma face estática e peculiar, dono de um considerável porte físico, devia ter por volta de um metro e oitenta e cinco de altura. No entanto, o que mais chamava a atenção nele era a estranha marca ou cicatriz em forma tortusamente espiral que tinha na testa.
— Olá! — disse o velho — Meu nome é Leon. Talvez você não faça idéia de quantas pessoas existam no mundo. Talvez você não faça idéia do tamanho de seu potencial. Talvez você não faça idéia de como seja a morte. Mas é importante que você comece a pensar sobre essas coisas.
Leon colocou as mãos em cima dos ombros de Dante.
— Por... quê? — perguntou o garoto.
O velho, dessa vez tirando as mãos que estavam sobre os ombros de Dante, riu. Seguidamente, proferiu:
— Isto não é um sonho, se é que você não percebeu. Você é um ser humano comum, como tantos outros bilhões. Tem noção? Bilhões! Isso sem comparar com o tamanho do universo inteiro... Você é menos que nada, meu rapaz! Pelo menos desse ponto de vista, mas... Não há nada que a mais insignificante pulga não possa fazer se nela houver determinação e força de vontade, sabe como é, é chato dizer isso mas muitos daqueles livros de auto-ajuda que suas tias lêem podem ter um certo fundo de verdade... Porém, deve-se dizer aqui que a morte, tanto quanto a vida, é uma peça misteriosamente essencial no que diz respeito à caracterização absoluta de um ser humano. Compreende? Juntar essas três questões — a insignificância inegável, a determinação inesgotável e a morte inevitável — e trazê-las a você é um favor que estou fazendo. Guarde isso com sabedoria.
Houve um clarão. O sonho terminara. Dante abriu os olhos e deparou-se com o nascer do sol. As palavras de Leon ainda ressoavam em sua mente: "Guarde com sabedoria..." Levantou-se e, lembrando-se das três questões, pensou consigo mesmo: "Não, Leon. Seria egoísmo se preocupar somente com essas três questões dentro desse mundo tão diverso. Contudo... Eu estaria sendo muito mais egoísta se continuasse nessa minha tentativa de querer esquecer os meus problemas. Vou usar a pouca sabedoria que tenho e vou, um dia, se isso for possível, retribuir esse seu favor!"
— Pelo jeito você já entendeu. — uma voz acabava de chegar aos ouvidos de Dante. Era Leon, em carne e osso, sentado bem ali ao seu lado, com as mesmas roupas, com a mesma aparência, com a mesma espiral na testa.
— O quê? Entendi o quê? — interrogou Dante, surpreso.
O velho levantou num salto, dizendo:
— Você entendeu a si mesmo. Apenas isso. — virou as costas para Dante e, acenando com a mão direita, despediu-se: — Até a próxima!
— Espere! — gritou Dante — Como você sabia...? De onde você veio? De onde você veio, Leon? Quem é você realmente?
— Sou só um amigo, mas não se preocupe com isso no momento. Por hora, pense bastante em como irá retribuir o favor que fiz a você!
O velho então começou a caminhar com estranha leveza, mas seus passos eram incompreensivelmente rápidos. Dante ficou apenas observando-o se distanciar, percebendo ao mesmo tempo que, a partir daquele momento, a sua "caracterização como ser humano" nunca mais seria a mesma. "Obrigado... Leon."

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Capítulo 7 - A Ópera Dos Deuses Contemporâneos

Foi por volta das onze e quinze da noite que Jóhann, Isadora e Marina chegaram, locomovidos pelo Celta Preto, na residência do jovem Luiz. Era uma pequena casa no simples Bairro Vaz de Lima, possivelmente uma das mais antigas de lá, o portãozinho amarelo parecia ter sido maldosamente maltratado pelo tempo. Isadora foi a única a descer do carro e, como não havia uma campainha, colocou as mãos entre as grades do portão e bateu palmas.
— Olááá! — gritou.
No carro, Marina, no banco de trás, já mais calma, questionava Jóhann sobre o local onde estavam.
— É aqui, Marina, que um garoto chamado Luiz mora. Ele toca folk e também tem uma certa experiência com o jazz. É, sem dúvida, uma das pessoas mais incríveis que já conheci.
— Entendi... Mas, o que vocês vieram fazer na casa dele esta hora da noite? — Marina tinha uma voz meiga e perspicaz. Era quase um deleite ouvi-la falar.
— Basicamente, viemos ver se está tudo bem com ele. E nós sabemos que o mesmo nunca está dormindo nesse horário.
— Entendo, entendo. Mas, qual seria, especificamente, a "conexão" que vocês tem com ele?
Marina constatou que sua pergunta havia sido bastante certeira. Ou Jóhann iria se esquivar da resposta ou lhe daria sem pestanejar. E o que ele fez foi mais ou menos uma mistura das duas coisas.
— A nossa conexão com ele, bela Marina, é aproximadamente a mesma conexão que temos com você. A única diferença é que ele se lembra de nós.
Marina riu.
— Você não está sendo muito claro. Por que não me diz, então, qual seria a minha conexão com vocês!?
— É, simplesmente, o fato de que... Ah, veja, ali está ele!
Jóhann apontara para o portão amarelo, cuja a fechadura estava sendo aberta por rapaz alto, magro e com longos e lisos cabelos castanhos. Dentro do veículo, Marina não podia ver o que ele conversava com Isadora.
— Ele é alto... — comentou Marina — Só que não chega a ser tão grande quanto Isadora. Aquela mulher é bizarra!
— Realmente... — concordou Jóhann — Bizarra mas genial, isso eu lhe garanto.
Ensimesmada, Marina tentou, minuciosamente, ler os lábios de Luiz e Isadora. Seus olhos pungentes e ágeis não deixavam quase nada escapar, mas a conversa parecia trivial. Desviou o olhar, mirando, desta vez, os olhos de Luiz: eram olhos cansados, com alguma cor indistinguível daquela distância, entretanto, havia uma certa falta de mesmice naquele olhar que deixou Marina estranhamente fascinada. No momento em que ela sentia esse fascínio, os olhos dele se encontraram com os dela e tudo estremeceu. Apesar disso, a sensação que Marina sentia não era exatamente boa...
— Eu o conheço. De alguma forma, eu o conheço.
— Sim, de fato — confirmou Jóhann, para surpresa da garota — Se não estou equivocado, esta é a terceira vez em que você o vê.
— Terceira?
— Exato. Na verdade, essa é a primeira situação em que você está vendo-o com clareza, já que nas outras duas ele sempre esteve envolvido por uma multidão de pessoas... A primeira vez foi no seu aniversário de nove anos e a segunda dentro de um trem.
Marina, em estado de assombro e perplexidade, interrogou Jóhann com acidez:
— Excelente, excelente. Você vai ficar me deixando com cada vez mais dúvidas e vai continuar não explicando nada. Como é possível que você conheça mais detalhes da minha vida do que eu mesma? Pára de hipocrisia, senhor Jóhann, pára de fugir, isso não é justo, eu mereço uma explicação!
O islandês, fingindo não ter ouvido nada, apanhou um CD no porta-luvas e inseriu-o no rádio. Segundos depois, a ópera Don Giovanni, de Mozart, começou a tocar.
— Adoro esta — disse Jóhann — É a obra-prima de Wolfgang, na minha opinião.
A garota dos cabelos muito cacheados revoltou-se com tudo aquilo. Tentou sair do carro, mas as portas estavam travadas. Juntou todas as suas forças no punho direito, fitou a janela da porta do lado esquerdo do banco de trás e, com bastante velocidade, esmurrou o vidro — ouviu-se um auto ruído; estilhaços de vidro espalhavam-se por todos os lados; a supostamente delicada mão de Marina sangrava, e ela, num ato inacreditável de agilidade, saltou para fora do Celta. Jóhann mal pode pensar em tentar segurá-la.
— Não sei quem vocês são — bradava Marina, fora do veículo, enquanto se preparava para correr — E, mesmo achando que seria interessante saber, prefiro não confiar!
E disparou no meio da escuridão da noite.
Meio segundo depois, Isadora olhou para Jóhann rapidamente, como se esperasse algum sinal de confirmação por parte dele. Ele, mal mexendo os lábios, murmurou:
— Faça.
E o que Isadora fez foi humanamente impossível. Ela abriu a boca e proferiu o nome "Marina" numa intensidade de decibéis tão estrondosa e ecoante que, inevitavelmente, acordaria qualquer ser humano que estivesse dormindo numa área de duzentos e cinquenta metros quadrados. Em seguida, soltou um "Volte, garota!" mais ensurdecedor ainda. Marina virou a cabeça para trás, apavorada, e tomou o maior susto de sua vida: Isadora estava bem ali, olhando-a seriamente, a menos de um metro de distância dela. Era impossível que a mulher tivesse conseguido alcançá-la em tão pouco tempo. Marina corria rápido. Só havia uma resposta.
— Vo... Você...? Como... ? — Marina via a coisa mais inconcebível do mundo acontecer diante de seus olhos.
— Volte apara o carro, querida. Por favor. — pediu Isadora.
— E... Espera aí... O que está havendo aqui? Como você veio parar aqui? Você estava lá com o tal do Luiz no portãozinho amarelo agora mesmo...
— Eu apenas escolhi onde eu quis estar.
Marina viu-se, mais uma vez, paralisada por aquele rosto extravagante de Isadora que ficava a encará-la com rispidez.
— Mas... Como você consegue fazer isso? Como você consegue ter esse poder?
A mulher dos cabelos coloridos respondeu:
— Em milênios, raramente vi olhos tão luminosos, tão profundos, tão emocionantes e tão atemporais como os seus. Você é uma dádiva, jovem Marina, uma verdadeira dádiva. A realidade é, de certo modo, uma ilusão, minha querida, e Jóhann e eu somos... Bom, nós somos deuses dentro dela!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Capítulo 6 - A Vez Sombria de Uma Sombra

A poeira e o sol: aquele sol desenhado na parede do quarto de Manuela, um desenho com traços rudes mas simpáticos, possivelmente esperando por retoques finais. A garota de cabelos ruivos ainda segurava a foto da enigmática Marina nas mãos, tentando entender o que fazia aquele rosto ser a coisa tão profunda e chamativa que era. Cecília, na cozinha, cozinhava ovos. Eram quase dez horas da noite, ainda daquele mesmo dia.
Manuela suspirou longamente e imaginou, de repente, o que Dante teria feito desde o momento em que haviam se separado no ônibus. "Do jeito que ele é, ou fez alguma besteira, ou está chorando no travesseiro — o que não deixa de ser uma besteira também!", pensou a garota. Pôs as duas mãos no rosto, suspirou mais uma vez e foi tomar um banho.
— Cecília! — chamou — Vou ir pro chuveiro... Se eu demorar muito, me avise!
A amiga exclamou uma resposta positiva, rindo.
A água quente escorrendo pelo seu corpo nu dava-lhe um prazer peculiar. Era uma sensação acolhedora, o calor da água a fazia se sentir segura; sim, segura, mas, simultaneamente livre, livre para criar mundos e situações em sua mente. A criatividade transbordava. Toda a beleza, oculta ou não, das coisas, parecia desmergulhar em todas as direções. E começavam a vir...: primeiro um rinoceronte sonolento; depois, uma mulher com roupas esquisitas, rodeada por encanamentos; uma geladeira apodrecida; um homem que quase se assemelhava a um mendigo; e, por fim, uma gama amontoada de situações aparentemente variáveis, onde tudo tendia a acabar em explosões, tragédias e destruições. Mas, subitamente, Manuela não viu mais nada: só uma imensa escuridão, tão grande que, de quebra, a fez perder a consciência.
Cecília, ouvindo um barulho alto vindo do banheiro, correu até lá, abriu a porta do boxe e se deparou, horrorizada, com Manuela ali, caída no piso, convulsiva.
— Manu! Manuela! — Cecília gritava, desesperada. Desligou o chuveiro e, chorando, esperou que as contrações da amiga parassem, o que não aconteceu: a ruiva continuava a sacudir-se involuntariamente — Manuela, por favor, volta! Volta pra mim!
Cerca de cinco minutos se passaram e, aliviada, Cecília cobriu Manuela com um roupão ao ver as contrações se acalmarem. Levantou-a e colocou-a na cama do quarto, sentado-se na beirada. Observou bem o corpo desacordado da garota: sempre havia sentido uma certa atração física por ela. Um calor furtivo tomou conta de Cecília naquele instante. Sorrateiramente, subiu na cama, posicionando-se de bruços sobre Manuela, ficando a vislumbrar, bem de perto, aquele rosto doce e belíssimo envolvido pelos cabelos vermelhos meteóricos (mas sem o lado efêmero do significado desta palavra).
— Nariz bonitinho... — sussurrou Cecília — A cor da sua pele... Esses cabelos tão apaixonantes... Essa sua boca... Não sei se seria justo fazer isso agora, mas... Eu não consigo evitar.
E, assim, Cecília beijou com suavidade os dóceis lábios de Manuela, dando-lhe, em seguida, um beijo carinhoso na testa. Desceu da cama e, fechando a porta do quarto ao sair, murmurou:
— Volte logo, garota vermelha.
Cecília foi até a sala, e, no meio daquele silêncio, a campainha tocou.
— Quem é? — perguntou ela.
Uma voz masculina do outro lado da porta respondeu:
— Sou eu! Dante!
Ela abriu a porta e viu Dante todo encharcado e sem fôlego.
— O que foi? — ela o questionou.
— Preciso... — ele parou para respirar — De ajuda.
— Por quê? O que aconteceu?
— Não é um bom momento pra falar. Não agora.
— Então, você não entra.
Ela foi fechando a porta, mas Dante segurou-a.
— Cecília, por favor. Eu fiz uma besteira enorme e não tenho como contar com ninguém, só com vocês duas. Por favor. É a última coisa que eu peço.
— Dante... eu entendo. A gente se coonhece há um bom tempo, e você sabe que nós te ajudaremos sempre que for necessário. Mas, no momento, não seria bom que você e a Manuela se vissem de novo, então, a não ser que você abra o jogo de uma vez, é melhor ir embora.
O garoto fechou os olhos, pensou e decidiu falar:
— Está bem. Eu... eu acabei de matar o meu pai!
— O quê? Você endoidou?
— Eu o matei, Cecília, eu o matei! Mas foi em legítima defesa! A arma era dele, eu o matei e joguei ela fora!
Razoavelmente chocada, ela dexou-o entrar.
— Tá bom, Dante, tá bom. Hoje eu tive um dia pesado, então, me explique uma coisa.
— Estou ouvindo.
— Como você pode provar que tudo isso que você me falou não passa de um pretexto pra que você possa ver a Manuela de novo?
— O quê? De onde você tirou isso?
— Dessa sua cara cínica. Não sei como ela te aguentou todo esse tempo. Cadê o seu caráter, garoto?
— Depois, quem endoidou fui eu... Se você quiser, eu te levo pra ver o cadáver dele agora mesmo!
— Não precisa.
— Ah, não?
— Não. Eu posso ver o sangue.
— Sangue? Onde?
— Em toda parte. O mundo é feito de sangue, Dante. O seu pai merecia morrer e você sabe disso. Pare de tentar controlar a situação. As coisas vão acontecer, e relaxar é a melhor coisa que você pode fazer no momento.
Ela segurou a mão dele, ambos sentaram-se no sofá e olhou-o nos olhos profundamente.
— Vá embora. Fique frio. Você não tem o que temer, nem mesmo a morte. Todo mundo morre um dia. E todo mundo sabe disso.
Eis que Dante se levantou e sem falar palavra alguma, caminhou até a porta e saiu, fechando-a devagar.
Cecília se espreguiçou, respirou fundo. E sorriu.