sábado, 21 de junho de 2008

Capítulo 5 - Mundo Inconstante

— Não é mais nada, nunca foi. Talvez até seja um dia, mas é improvável. Esse rapaz é deplorável, é triste dizer isso, mas é a mais pura verdade! — uma senhora alta, de cabelos coloridos, com um estilo excêntrico e contemporâneo de se vestir, com cerca de cinquenta anos de idade, conversava quase que escandalosamente com um senhor franzino e misterioso, com sotaque estrangeiro (era islandês) que deveria ter no máximo quarenta anos, numa mesa de um restaurante da Avenida Paulista.
— Eu acho que discordo. O pobre jovem não sabe bem que caminho seguir na vida, apesar de já estar com vinte anos, mas assim mesmo existe um potencial nele, um potencial adormecido.
A mulher passou a mão pelos cabelos, tomou um gole do Whisky que estava em cima da mesa e retrucou:
— Besteira. Quando alguém é assim, não tem jeito. Esse tal potencial vai ficar adormecido pro resto da vida, a não ser que algo muito impactante surja de repente, e o desperte.
— Mais uma vez, discordo. Ele teve algumas conquistas na vida. Não sei se alguma coisa o despertaria mais do que a recente morte da mãe, então descartaria essa hipótese. É possível que a ausência de Manuela em sua vida possua um peso que, com o decorrer do tempo, venha a modificá-lo mais intensamente. Não sei. Mesmo assim acho que devíamos apostar nele.
— Jóhann, você está se precipitando. Mal analisou a irmã dele, esta sim parece ter algumas peculiaridades valorosas e interessantes. Já olhou nos olhos daquela jovem? Jamais vi olhos como aqueles, só podem ser extra-terrenos! Sem falar da personalidade, que é indiscutivelmente brilhante. Ela é um ser muito único para que deixemos passar batido.
Dessa vez foi Jóhann quem bebeu um pouco do Whisky e ficou a bater de leve na mesa com os dedos.
— Sim, eu pensei nela também, Isadora. Aquela garota, Marina, possui um inteligência que, se não equivale à nossa, no mínimo, chega perto. O problema, no entanto, é o vasto potencial interior dela — pode fugir totalmente do controle, e, nesse caso, é melhor nem estarmos perto.
O garçom veio e Jóhann pagou a conta. Isadora e ele se levantaram (com certa impulsividade) e caminharam para fora do estabelecimento; a Avenida Paulista, à noite, parecia pacífica e sossegada. Os dois entraram num Celta preto que estava estacionado perto dali — Jóhann pôs-se a dirigir o veículo.
Isadora, colocando o cinto, comentou:
— Acho que seria bom darmos uma olhada no nosso outro garoto antes.
— Quem, o Dante?
— Não, o Luiz.
— Quê? Eu imaginava que, pelo menos com relação à ele, nossas tentativas tinham se esgotado.
— Provavelmente acabaram... mas os problemas dele não são só psíquicos ou existenciais. O coitado passa fome.
— Isadora... a culpa não é nossa.
— Nem dele. É só deixarmos algo pro infeliz comer e pronto. Eu já passei fome, e não é nem um pouco bom.
Olhando para o lado, na rua quase vazia, enquanto o farol estava vermelho, Jóhann só viu uma jovem de bicicleta — os cabelos muito cacheados só o remeteram a uma pessoa.
— Veja, Isadora.
Isadora fitou-a, eufórica. Marina, por acaso, virou a cabeça e viu os dois no carro a observarem-na.
— Vá Jóhann, pegue-a, rápido! Saia do carro e pegue-a!
O islandês pulou para fora do Celta, sendo praticamente empurrado por Isadora. Marina mal teve tempo de pensar em colocar o pé no pedal: já estava imóvel entre os braços magros de Jóhann, sendo levada para o carro preto e vendo sua companheira quase íntima, a bicicleta, ficar cada vez mais longe de si. Jóhann jogou a jovem no banco de trás e voltou para o volante. A garota, já preparada para gritar e tentar fugir, ficou inteiramente paralisada ao ver a figura de Isadora a sorrir bondosamente para ela.
— Olá, Marina. Talvez você não se lembre, mas essa não é a primeira vez que nos vemos.
— Eu... Eu... Não sei. — Marina gaguejava.
— É compreensível. Agora, escute: no momento, você vai apenas aguardar. Eu e meu amigo temos uma tarefa a cumprir, coisa rápida. Depois disso, vamos te mostrar... como eu poderia te dizer — ah sim! — um novo mundo! — e, com as mãos abertas, desenhou um semi-círculo no ar.

sábado, 14 de junho de 2008

Capítulo 4 - Chuva, Grama e Sangue

A praça estava quase vazia, possivelmente pela chuva que começava a cair por ali, Dante foi convidado por seu pai para sentar em um dos bancos, que se sentou também em seguida ao lado do filho. Dante, em sua atual situação, não sabia se sentia medo ou raiva, se gritava acusando o pai ou se corria para fugir do assassino. No fim das contas ficou ali, esperando para ouvir qualquer coisa que o pai tivesse para dizer. A mistura do vento frio e da garoa cortante embrulhava o estômago do garoto. Respirou fundo e direcionou sua atenção ao pai.
— Filho... Antes de tudo, preciso te dizer: a culpa não foi minha — aquela frase doeu em Dante como se tivesse levado um murro no pâncreas — Sua mãe não sabia o que estava fazendo e, no meio daquela reviravolta, a arma acabou disparando. Você viu, você estava lá.
Virando a cabeça e olhando o pai com fúria, Dante retrucou:
— Sim, eu vi, eu estava lá, eu vi você matando a minha mãe, foi isso que eu vi! Não sei como você ainda consegue negar isso, não é possível.
Ambos ficaram em silêncio. O Sr. Alves olhava o horizonte, pensativo, talvez chegando a perceber que não dava mais para enganar o filho, não naquela altura do campeonato. Era um homem alto, magro, e com uma constante expressão de cansaço no rosto, o que lhe dava uma aparência mais velha do que a sua idade real, trinta e nove anos. A perda de seu emprego resultou numa intensa briga de família que durou muitos meses, atingindo o ápice no dia da morte da esposa e a sua fuga. A partir dali Dante e Marina passaram a morar com os tios, mas não se passou uma semana e a irmã mais nova de Dante havia fugido, levando apenas algumas roupas e sua inseparável bicicleta.
— Dante, meu filho, você já é quase adulto, você entende o mundo, entende as coisas. Eu quero apenas fazer um acordo contigo. A nossa família acabou, não há mais o que tentar recuperar. Só preciso que você colabore, pela última vez.
— Colaborar? Colaborar?!? Pai, você está enlouquecendo? Você acha que eu vou colaborar em alguma coisa para ajudar você depois de matar a minha mãe, seu desgraçado?
— Meu rapaz, eu já estou na merda. Acabar com você não seria agradável para mim, mas eu não hesitaria se fosse necessário; quero evitar ter que sujar as mãos de novo, se você me entende. Por isso é que peço sua colaboração, nada mais. É só ficar quieto, de bico fechado, e todo mundo sai ganhando. Essa é a proposta e, como você vê, não tem muita opção.
O estômago de Dante embrulhou-se mais ainda. Tinha que pensar num jeito, numa maneira de fazer justiça, por mais que as coisas pudessem acabar meio sangrentas. O garoto rodeou o ambiente com os olhos, procurando algum objeto que pude-se ajudá-lo a abater o pai de alguma forma, mas não havia nada.
— Pai... Você é um desgraçado. O maior que já conheci — e, num ímpeto de fúria, avançou sobre o pai, derrubando na grama do parque, dando-lhe repetitivos socos no rosto e em qualquer lugar que conseguia, mas o pai era mais forte, com apenas um braço, desvencilhou-se do filho, se levantou, tirou o revólver de dentro do casaco e mirou Dante.
— Não precisava fazer isso Dante, não precisava me deixar com mais raiva.
Dante, sem temer o revólver que o pai apontava-lhe, retrucou:
— Raiva? Quem tem que ter raiva sou eu, pai, eu!
Num rápido movimento de pernas, Dante deu uma rasteira no pai, fazendo com que o ele caísse, perdendo a arma, que ficou à uns dois metros de distância dos dois. Dante ficou de pé, apanhou a arma e dimensionou-a, mesmo mal sabendo manuseá-la, diretamente para o pai. Engatilhou. Seu dedo indicador tremia no gatilho. O Sr. Alves, levantando a mão, inventou, de repente, uma mentira que, como ele imaginava, talvez imobilizaria Dante.
— Pare, filho, pare! Se fizer isso... se fizer isso nunca mais vai ver sua irmã de novo! Nunca!
— O quê?
— É o que você ouviu: só eu sei onde sua irmã está. Se você atirar agora nunca mais vai vê-la. E não adianta você me levar para uma delegacia agora, pois, por mais que você me acuse de qualquer coisa, eu negarei tudo, não existem provas de nada. Ninguém acreditará em você, seu miserável. E, além do que...
Dante puxou o gatilho. Ouviu-se um estrondoso ruído. O Sr. Alves parou de falar. Uma trovoada irrompeu no céu. O sangue, misturando-se com a grama e a chuva, parecia brilhar num tom mais vermelho do que o normal, um vermelho muito vivo, e continuou escorrendo, abrindo caminho entre as folhas verdes. Um caminho vermelho.
— Acabou, pai. Acabou.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Capítulo 3 - Marina

Quando Manuela chegou ao apartamento na Rua Vergueiro, a amiga Cecília a esperava na porta, com uma expressão aflita no rosto.
— Entra
Manuela entrou. O apartamento razoavelmente grande estava um tanto quanto bagunçado, com algumas roupas espalhadas pelos cantos, mas nada muito aterrador. Cecília fechou a porta e foi se sentar ao lado de Manuela no sofá.
— Manu...
— Cecília, eu encontrei o Dante no ônibus. Acho que as coisas estão mais amenas. Ele entendeu agora.
— Que bom. Bom para vocês. Espero que esteja fazendo a coisa certa.
— Acho que estou sim.
As duas se olharam, sorrindo. Cecília, com seus longos cabelos negros e olhos azul-esverdeados era quase tão bonita quanto Manuela. Eram amigas desde quando entraram na faculdade — o curso era de Publicidade, mas ambas haviam o largado faziam três meses. De lá, arrumaram um emprego e resolveram rachar o aluguel do apartamento.
— Isso também me alivia, sabia? — comentou Cecília — É muito bom ver você com essa cara renovada.
— A sensação de liberdade é ótima agora. Não que eu não gostasse do Dante do meu lado, mas, você sabe, tem horas em que a gente não suporta mais. Mas, deixa pra lá. O caso tá resolvido. Agora me fala: qual era a proposta da qual você falou no celular, hum? Pode ir falando.
Cecília riu.
— É coisa simples, Manuela, mas não pra agora. Tem que ser nas férias, e elas estão chegando, só falta um mês. Você pode ter se demitido da floricultura, mas eu ainda estou penando lá na firma. As papeladas que eu tenho que arrumar todo dia são uma tortura.
— Tá, tudo bem. Mas você ainda não disse qual é a proposta.
— É o seguinte: eu conheço um pessoal meio hippie lá do interior, de uma terrinha perto de Itu... e, bom, eu pensei se nós não poderíamos ir para lá nas férias, ficar uns dias, pra esquecer toda grandeza insuportável dessa cidade, para respirar outros ares, fazer coisas diferentes. E aí, topa?
— Primeira coisa: não fale mal da grandeza de São Paulo. Eu tenho uma relação com essa cidade, eu a amo demais. Segunda coisa: não gosto muito desses interiorezinhos aí, eu não tenho nada contra esses seus amigos, mas não duvido nada de que irá rolar muita droga nesse lugar, você sabe o que eu quero dizer, e terceira coisa: o que eu queria era viajar pra conhecer outras cidades grandes e tal. Mas, sei lá, podemos ir mesmo assim, se o pessoal for realmente interessante, pode ser uma experiência boa.
Não compreendendo totalmente os motivos da amiga, Cecília exclamou:
— Que saco, pô! Você me fala que queria viajar sem rumo por aí, fazer mais coisas e o caramba, mas quando as oportunidades aparecem, você as trata com todo esse desprezo?
— Não trata-se de desprezo, Cecília, é sinceridade. Só isso, você sabe. Mas nós vamos ir sim, não esquenta. Se vai ser bom ou não, que se dane, vamos ver no que vai dar.
Manuela se levantou e foi até a janela. Uma garoa fina começava a despencar do céu. Um cansaço mental incômodo parecia querer dominar sua mente. Fechou os olhos.
— Manu... — chamou Cecília — É quase impossível não ficar melancólico nesses dias obscuros e gélidos, mas, acredite, as coisas vão melhorar, eu tenho certeza.
Rindo num tom meio zombeteiro, Manuela disse:
— Como pode ter certeza? Como vai me garantir que a minha vida não vai continuar sendo essa merda pra sempre?
— Descansa, Manuela. Vai esfriar a cabeça um pouco.
— Vou mesmo — mas, enquanto isso, lá fora, Manuela acabava de ver repentinamente, uma pessoa conhecida — Cecília, vem cá, olha ali! —
Manuela apontou para uma garota agachada no meio da calçada amarrando o tênis, com uma bicicleta do lado. Os cabelos muito cacheados, cortados na altura dos ombros, davam-lhe um ar alternativo, mas que não deixava de ser comum, não deixava de ser uma pessoa com um semblante cheio de personalidade (ou não!), mas era singular, singular na aparência, na beleza, em tudo, mas talvez tudo isso fosse apenas suposição, talvez fosse uma garota antipática, infantil, tola, mas quem não deixa de ser tolo, ou antipático, ou infantil em alguns momentos? Era, afinal, um ser humano, como qualquer outro, como Manuela, Dante ou Cecília — seu nome: Marina.
— É a Marina, não é? E agora? Vamos atrás dela? — perguntou Cecília.
— Bom, não sei, ela fugiu de casa por conta própria, não acho que devemos interferir na decisão dela. Se bem que vai ser meio difícil ver ela de novo numa cidade como essa... Vamos, vamos lá, temos que pelo menos falar com ela.
Afobadamente, as duas correram velozmente para fora do apartamento, desceram dois andares de elevador (o apartamento delas ficava no segundo andar) e, virando a esquina, chegaram à calçada onde Marina estava. Ao verem a garota montar na bicicleta, saíram correndo, gritando o nome dela, num desespero cômico e estranho.
— Marina! Marinaaaa!
E, numa calma extraordinária, Marina, dando uma rápida olhada para trás, começou a pedalar, ainda ouvindo as vozes das duas que gritavam estupidamente.
— Marina! Esperaaaa!
Continuaram a correr atrás dela, Marina virou outra esquina, e depois, acelerando a pedalada, foi sumindo de vista.
— É, perdemos ela. — falou Cecília, desapontada.
— Sim, mas... o que é isso? — Manuela se abaixou para pegar um pedaço de papel caído no chão. Parecia ser a metade de uma foto rasgada no meio, nela via-se o rosto de Marina, um rosto absurdamente perfeito, os pungentes olhos castanho-claros, um sutil sorriso aparecia nos lábios, a menina de dezessete anos exalava grandeza, alvura, paciência, e, acima de tudo, exalava o poder de ser independente. — Como ela é bonita... Ah, tem algo escrito atrás: "Para vocês duas: se quiserem mesmo me encontrar para conversar, saber as circunstâncias dos meus atos, ou qualquer coisa, me encontrem daqui há seis dias no Terminal Bandeira, às 17:00. Eu sou uma coisa que pensa."
Uma brisa leve e nostálgica acompanhava desordenadamente os pingos da garoa que caía na Rua Vergueiro naquele momento.

sábado, 31 de maio de 2008

Capítulo 2 - Despedida Turva

— D... Dante? Como é possível, o que você ‘tá fazendo aqui? — o garoto ficava olhando-a nos olhos, sem falar palavra alguma. Coçou ligeiramente a barba malfeita e desviou o olhar — O que você tem na cabeça, Dante? Eu pensei que depois de ontem as coisas tinham ficado bem claras.
Dante, dando um murro no banco da frente, gritou:
— Mas não dá! Não dá! Pra mim não dá! Eu sei que isso é ridículo, mas não consigo continuar assim!
— Cala a boca, cala a boca, por favor! Não agüento mais a sua teimosia! Você vai ter que entender, Dante, você vai ter que esperar!
— Mas, justo agora? Justo agora quando eu estou nessa situação? Meu pai mata minha mãe e some, a Marina foge de casa, eu fico quebrado, abandonado, semimorto, e você também me chuta assim, tão friamente?
— Esquece isso, Dante, esquece a sua família, você é um ser individual, esquece tudo isso, esquece tudo que passou...
A garota virou-se para a janela, olhou os edifícios suspirando, sorrindo. Dante, cobrindo o rosto com as mãos, tentava não sentir raiva do que Manuela havia dito.
— Não dá, já disse, não dá! — ele insistia — A família tem muita influência no indivíduo que eu sou, não tem como isso não ter impacto sobre mim.
Manuela, ainda observando os prédios, falou com uma doçura inigualável na voz:
— Dante... o que você vê nesses prédios todos, em tudo isso?
O rapaz viu um amontoado de edifícios de todos os tipos, a representação mais comum da cidade de São Paulo, e nuvens escuras começavam a surgir no céu — choveria na cidade.
— Nada. Não consigo me sentir tão fascinado por isso quanto você. São apenas prédios.
— Isso mesmo, não passam de prédios. Eu me sinto fascinada por eles e nem sei por quê. É uma fascinação muito forte Dante, e eu queria que você compartilhasse dela comigo, mas as coisas são como são, não como queremos que elas sejam. Por mais que o que eu esteja fazendo seja um erro, eu preciso achar a pessoa que compartilhe dessa fascinação comigo.
— E é por essa idiotice que você vai destruir uma relação de anos? Não consigo entender você, Manuela, simplesmente não consigo. Sua cabeça parece girar num sentido contrário das pessoas normais.
Manuela ainda observava os prédios, seus olhos brilhavam, uma explosão de pensamentos, emoções e idéias reviravam sua mente.
— Não é só por isso. Eu preciso ficar um tempo da minha vida sozinha, livre. Você é especial pra mim, e muito, mas nós precisamos seguir distantes um do outro agora, pra depois retornarmos mais firmes, melhores um para o outro. É necessidade de todo casal, parece besteira, mas vai nos fazer bem.
Eis que, colocando as mãos nas bochechas dele, Manuela o beijou lentamente, um beijo objetivo mas lento, que o remeteu aos momentos mais importantes vividos com ela: o dia em que se encontraram pela primeira vez, na festa de aniversário de Marina; o dia em que deram o primeiro beijo; o dia em que viajaram juntos com uma turma do colégio à praia de Santos; o dia em que dormiram juntos no metrô, sem motivo; o dia em voltavam de um encontro num restaurante da Av. Paulista; o dia em que tiveram sua primeira relação sexual. E então os lábios se separaram, e o mundo caiu pesadamente sobre os dois. A garota se levantou, deu sinal apertando o botão laranja e disse:
— Vou descer no próximo.
Ele só a olhava, e os olhares eram a única coisa de que precisavam. Dante a entendia agora. Acenou com a cabeça, a porta do ônibus abriu e Manuela foi-se, misturando-se com a multidão lá fora.
Sozinho, no ônibus, Dante suspirou:
— Adeus.
Mas ele dificilmente imaginaria que, sentado no último banco do ônibus, ouvindo tudo, estava seu pai, assassino da própria esposa, o Sr. Alves, como o chamavam. Ele se levantou, foi até o banco onde o filho estava sentado e colocou a mão direita no ombro dele, apertando-o com força.
— Vamos, Dante. Precisamos conversar.

sábado, 24 de maio de 2008

Capítulo 1 - Apenas Alguns Seres Humanos


Cinco horas da tarde, quarta-feira. Deitada na grama, debaixo da sombra de uma árvore, fumando seu cigarrinho diário, estava Manuela. Cansada, confusa, fitava com seus graciosos olhos azuis (que olhos!) algum ponto incerto no meio dos galhos e folhas. A fumaça do cigarro meio que embaçava-lhe a vista, mas ela planejava parar com esse vício, mesmo que um cigarro por dia fosse pouco se comparado com muitos outros fumantes obsessivos espalhados pelo planeta. Para ela, tratava-se apenas de mais um vício passageiro na sua vida, no meio de tantos outros que já tivera ou viria a ter — as pessoas são assim, cheias disso, e no meio estão suas crenças, seus fascínios, paixões, chegando por fim na razão e na criatividade. Manuela era assim, mas seguia caminhos mais mesclados, talvez até "descolados"; era uma típica garota com visual "cool" e, como se não bastasse, espetacularmente bonita: seus longos cabelos ruivos, de um vermelho bem vivo, vermelho sangue, eram sua maior peculiaridade quando somados aos olhos azuis — mas, não só isso, pois tinha um rosto lindo, "bem desenhado", como dizem, e era dona de um corpo modelado com perfeição. Porém, não era só no seu lado exterior que a garota surpreendia, tinha um grande potencial de intelecto, talvez alcançado de uma maneira um tanto quanto capenga, mas que era uma mente forte, elevada, isso era.
— Que saco...! — exclamou, sozinha, tirando o cigarro da boca e jogando-o ainda aceso perto dos pés para depois apagá-lo, pisoteando-o com a bota plataforma que usava. — O que eu ganho fumando isso? O que eu perco fumando essa merda? — perguntava-se.
Ficou de pé. Suspirou. Seu estômago doía de fome, não comia desde as oito horas da manhã. Sem dinheiro, não tinha como comprar nada nas barraquinhas espalhadas pelo Parque do Ibirapuera, que era onde estava, um dos seus lugares favoritos para tranqüilizar a mente, aliviar o estresse. Mas tudo, pouco a pouco, ia se tornando cada vez mais angustiante: sua vida parecia desmoronar — mas isso tinha acabado naquele dia, naquela quarta-feira. O telefone celular, no bolso de trás da sua calça jeans, começou a tocar (o toque era uma música do Sigur Rós, uma banda islandesa razoavelmente famosa de pós-rock formada nos anos 90), Manuela o retirou de lá e olhou o visor: era sua amiga Cecília, com quem dividia o apartamento em que morava. Atendeu.
— Fala.
— Tudo bem, Manu? ‘Cê tá demorando pra chegar, o que acontece?
— Nada não, Cecília. ‘Tava só esfriando a cabeça, tô de saco cheio...
— Manuela... Como assim? Saco cheio do quê? De mim?
— Ah! De você e de todo mundo! Quero sumir, quero pegar uma estrada, viajar por aí, sem rumo. Tô cansada de toda essa grande merda que o mundo é! Cansada de verdade!
Cecília, do outro lado da linha, não sabia se ficava surpreendida ou se achava graça da situação. "Ela está brincando, só pode", pensou.
— Hahaha! Para de bancar a depressiva, para de bancar a vítima, Manu. Não tem como você fugir do mundo. É absolutamente impossível, garota. E existe muita coisa boa nele pra você ir desistindo de tudo assim...
— É exatamente isso o que quero fazer, poxa! Quero aproveitar o mundo, eu quero viver, caramba! Quero montar uma banda, quero fazer mais sexo, quero viajar pelo mundo! Será que você, que me conhece há tanto tempo, consegue entender isso?
— Eu te entendo, Manu.
— Entende mesmo?
— Sim, mas, calma. Eu já senti a mesma coisa que você e te entendo tão bem que quero propor um acordo.
No Parque, Manuela caminhava velozmente para a saída. De repente, lembrou-se das palavras de Dante, ditas à ela na noite anterior: "Você não vale nada, Manuela. Nada. Me excluiu da sua vida quando eu mais precisei de você. Não dá, Manuela, não dá pra entender você!", e o jovem Dante, à beira das lágrimas, saiu correndo no meio do Terminal Santo Amaro. Manuela voltou à Cecília:
— Eu sei o que você quer propor, Cecília, e não quero saber, não aceito esse acordo idiota. Não vou fazer as pazes com o Dante, não depois do que ele fez.
— Manu... esquece o Dante. Não é nada relacionado à ele. Venha logo aqui para o apartamento e a gente conversa melhor. Aproveita e tira uma soneca no busão. Você precisa, você merece.
— Tá... Tô exausta. Desculpa. Até daqui há pouco... Ah! Eu já ia me esquecendo: eu me demiti da floricultura hoje!
E desligou o celular. Manuela, pensativa, parou de andar por um instante bem na entrada do parque e observou ao redor: os ônibus, os carros, os prédios, as pessoas, a poluição, o céu, o asfalto, as árvores que ficavam pra trás, tudo que o seu campo de visão podia alcançar... o que era tudo aquilo? "Preciso usar mais os outros sentidos", pensou a garota ruiva. "A visão é cansativa às vezes".
Sentou-se num banco no ponto de ônibus e ficou a esperar a chegada do meio de transporte. Um velho esquisito (não era um mendigo!), não chegava a ser mal vestido, mas tampouco se vestia bem, estava sentado próximo à Manuela, e fazia gestos estranhos com as mãos, como se estivesse acariciando algum animal ou pessoa, ficando sempre a olhar para todos os lados com pressa, parecendo estar temendo a chegada de alguém. Manuela observou-o com dúvida, mas logo desviou o olhar, voltando a viajar em seus pensamentos. O velho então se levantou do banco cambaleando um pouco e foi se aproximando dela lentamente, até que, ao ficar frente a frente com ela, começou a balançar as mãos em volta dela sem tocá-la, murmurando umas baboseiras:
— Ô... Gui... Ê... Ô... Ih... Ô...! — aí abaixou os braços e voltou para o lugar onde estava sentado. Manuela, boquiaberta, não tinha entendido o misterioso gesto (se é que fazia algum sentido) e provavelmente não ia entender tão cedo.

O ônibus chegou, Manuela deu sinal, subiu e se sentou num banco ao lado da janela, encostando a cabeça no vidro e adormecendo. E, apesar da tranqüilidade, não teve nenhum sonho significativo o suficiente para que se lembrasse posteriormente. No entanto, uma pessoa, uma significativa pessoa, adentrava no ônibus quando o mesmo parou no ponto seguinte, o indivíduo subiu no veículo, passou pela catraca e viu Manuela quase que de imediato e, meio inconscientemente, sentou-se a lado da garota. Esse indivíduo era Dante.
Dante era um ser humano distinto. Apesar da aparência bastante comum, por dentro guardava uma personalidade instável, turbulenta e, por que não dizer, esquisita. Era um rapaz bonito, culto, cheio de vida, educado, mas ao mesmo tempo não era muito sociável, nem expressivo, e raramente sabia divertir as pessoas (a não ser quando conseguia diverti-las involuntariamente). Mas talvez fosse possível dizer que naquele garoto existia alguma coisa especial, alguma coisa que, no meio de tanta contradição, brilhava ardentemente. Seguindo esta linha, é provável que Manuela tenha visto nele essa coisa que brilhava e, por esta razão, iniciaram uma relação amorosa. O ano era 1999, Manuela e Dante tinham onze e doze anos, respectivamente. A irmã mais nova de Dante, Marina, ia fazer nove anos de idade e sua mãe ia fazer uma daquelas típicas festanças de filmes americanos no seu vasto quintal gramado. As mães de Manuela e Dante não chegavam a ser amigas, mas eram colegas de trabalho e, já que a festa seria grande, quando mais gente fosse convidada, melhor. A pequena Manuela não tinha a mínima vontade de ir, pois o pai havia prometido que a levaria no cinema, e do jeito que as coisas andavam (a mãe era a voz ativa da casa, se é que vocês me entendem!), essa promessa seria quebrada. Dito e feito, estavam lá os três na festa de nove anos de Marina, um mundaréu de adultos e crianças comiam, corriam, riam, brincavam, era tudo uma aparente alegria sem fim, até o ainda pequeno e já anti-social Dante se divertia. Sua irmã Marina comia doces sem parar. Manuela, no entanto, estava isolada, num canto, sentada numa cadeira de plástico, ainda emburrada por não ter ido ao cinema. A mãe da aniversariante logo viu a menina solitária e pediu que Dante fosse chamá-la para comer alguma coisa. Deve-se dizer que foi exatamente nesse instante que os dois se conheceram e definitivamente nunca mais se esqueceriam um do outro.
— Quer comer um brigadeiro?
— Tá...
E, mastigando um delicioso beijinho, Dante, meio exaltado e meio impulsivo, disse:
— Você é linda.
Surpresa, a menina respondeu:
— Obrigado.
No ônibus, Dante apreciava em silêncio a beleza daquela Manuela adormecida, ainda a amava mais do que qualquer outra coisa e, enquanto essa certeza o dominava, o ônibus deu um solavanco forte e a garota acordou. Ainda sonolenta, viu o asfalto pela janela, e depois olhou para o lado, demorando um certo tempo para reconhecer quem estava ali.
— D... Dante!?